Uma Jornada no Tempo: A História Fascinante de Barcelos
Entender Barcelos é mergulhar nas raízes da própria Amazônia. Mais do que um destino de pesca, a cidade é um museu a céu aberto, cujas águas escuras e ruas tranquilas guardam as memórias de ter sido o primeiro centro político e administrativo da região. Sua trajetória é uma fascinante narrativa de poder, esquecimento e reinvenção, intrinsecamente ligada aos ciclos econômicos e às estratégias geopolíticas que moldaram o norte do Brasil.
Das Missões Indígenas à Primeira Capital da Amazônia
Muito antes da chegada dos europeus, as margens do Rio Negro eram o lar de diversas e ricas culturas indígenas, como os povos Manaós e Barés. A história formal da cidade começa em 1728, com a fundação da Missão de Mariuá por missionários carmelitas. O objetivo era catequizar a população local, mas a missão rapidamente assumiu um papel estratégico para a Coroa Portuguesa, servindo como um posto avançado para consolidar o domínio territorial na vasta e disputada fronteira amazônica.
O grande ponto de virada ocorreu em 1758. Por decreto de Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão do célebre Marquês de Pombal, a aldeia foi elevada à categoria de vila, recebendo o nome de Barcelos. Este ato não foi apenas simbólico; marcou a fundação da primeira capital da recém-criada Capitania de São José do Rio Negro, o embrião do que hoje é o estado do Amazonas.
O Ciclo de Esplendor e a Transferência de Poder
Como capital, Barcelos viveu seu auge. A vila tornou-se o coração pulsante da Amazônia Ocidental, atraindo administradores, militares e comerciantes. Construções imponentes, de inspiração colonial, foram erguidas para abrigar a sede do governo e a elite local, e a vida social e política floresceu. Durante décadas, todas as decisões importantes sobre a exploração e defesa da região passavam por suas ruas.
Contudo, a localização remota e a logística complexa começaram a pesar. Considerada vulnerável e distante de outras rotas fluviais dinâmicas, a cidade perdeu seu status. Em 1791, a capital foi transferida temporariamente para a Barra do Rio Negro, e de forma definitiva em 1808, dando origem à cidade de Manaus. Para Barcelos, esse evento marcou o início de um longo período de isolamento e declínio econômico, um silêncio que preservou muito de seu charme histórico.
A Reinvenção Pelas Águas: Peixes Ornamentais e Pesca Esportiva
O século XX trouxe uma nova vocação para Barcelos, nascida diretamente da riqueza de suas águas. A cidade se tornou a maior exportadora mundial de peixes ornamentais, com destaque para o néon-cardeal (Paracheirodon axelrodi), um pequeno peixe de cores vibrantes que encanta aquaristas em todo o globo. Esse ciclo econômico, conhecido como “piaba”, movimentou a economia local por décadas.
Mais recentemente, Barcelos se reinventou mais uma vez, consolidando-se como a capital mundial da pesca esportiva. Pescadores do mundo inteiro chegam em busca do troféu supremo das águas amazônicas: o Tucunaré-açu (Cichla temensis). Hoje, a cidade vive em função do turismo de aventura e do ecoturismo, com uma infraestrutura robusta de barcos-hotéis, pousadas e guias especializados. A história de Barcelos continua a ser escrita, não mais pelo poder administrativo, mas pela força de sua natureza exuberante e preservada.
Dicas rápidas
- Converse com os moradores mais antigos; eles são os guardiões vivos de histórias e tradições que não estão nos livros.
- Caminhe sem pressa pelo centro da cidade e observe os detalhes da arquitetura. Alguns casarões antigos ainda revelam traços do período colonial.
- Visite a orla e imagine como era o movimento de embarcações militares e comerciais durante o auge da capital, contrastando com a tranquilidade atual.